3. BRASIL 9.10.13

1. O DILEMA DE MARINA
2. VIVO E  ESPREITA
3. O FANTASMA REAPARECE

1. O DILEMA DE MARINA
A hesitao da ex-senadora em definir a candidatura a presidente repete o conflito que marca sua carreira: manter intocveis os seus princpios ou ceder ao pragmatismo?
OTVIO CABRAL

     No fim da manh de sexta-feira, quinze horas depois de o Tribunal Superior Eleitoral ter rejeitado o recurso que possibilitaria a criao de seu partido, Marina Silva pediu aos vinte apoiadores com quem se reunia em um apartamento em Braslia que a deixassem sozinha. O grupo tinha passado a madrugada toda discutindo se, diante da sentena do tribunal, a ex-senadora deveria adiar a deciso de se candidatar a presidente da Repblica ou se filiar a um partido j existente apenas para disputar a eleio no ano que vem. Enquanto se despedia do grupo, Marina disse que iria dormir um pouco e que esperava "ter um sonho" que a ajudasse a decidir. Ela dormiu, mas o sonho no veio. E a escolha ficou para o sbado 5, ltimo dia do prazo para que um candidato se filie a um partido a tempo de disputar a eleio de 2014. Se optar por adiar a candidatura, preservar imaculado o seu maior patrimnio: o discurso da pureza tica e da singularidade do grupo que representa  em tudo contrrio aos mtodos da "velha poltica, como ela diz. Caso, porm, se decida pela candidatura, estar dando o primeiro passo para que seus sonhos sejam testados no mundo real.
     At agora, o embate entre esses dois mundos a tem feito sofrer. Na madrugada de discusses houve momentos tensos. Os participantes estavam divididos basicamente em dois grupos: de um lado, os apelidados "sonhticos"  idealizadores, como Andr Lima e Maria Alice Setbal  tentavam convencer a ex-senadora de que seria melhor abandonar o projeto presidencial do que romper com seus princpios. "Voc vai perder toda a credibilidade se trocar o seu sonho pelo pragmatismo poltico", afirmou Lima, coordenador jurdico da Rede. Do outro lado, defendendo a filiao e a candidatura por outro partido, ficaram os polticos com mandato, como os deputados Alfredo Sirkis e Walter Feldman. "No d para esperar 2018, sua chance  agora.  loucura jogar 20 milhes de votos no lixo", disse Sirkis. Em determinado momento, inconformado com a indefinio de Marina, o deputado levantou a voz e foi-se embora, deixando a ex-senadora aos prantos. No dia seguinte, ele anunciou que se filiaria a outro partido e publicou um texto duro em seu blog justificando a deciso: "Marina comete equvocos de avaliao estratgica e ttica, cultiva um processo decisrio catico e acaba s conseguindo trabalhar direito com seus incondicionais. Reage mal a crticas e opinies fortes discordantes e no estabelece alianas estratgicas com seus pares. Tem certas caractersticas dos lderes populistas, embora deles se distinga por uma generosidade e uma pureza d'alma que em geral eles no tm", escreveu. Na tarde de sexta-feira, Marina adiou por duas vezes o incio da entrevista coletiva para saber o que pensavam seus amigos do Acre, do incio da militncia poltica. Um dos que ela mais ouviu foi o escritor Antonio Alves, o Toinho, amigo de juventude e dos primeiros tempos do PT. Ao lado dele, chorou por vrias vezes. 
     A dificuldade de Marina em decidir o caminho a seguir reflete uma carreira marcada pelo confronto entre a defesa dos seus ideais e as realidades com que ela muitas vezes deparou e de que no gostou. Nascida em um seringal no Acre e alfabetizada aos 16 anos, Marina Silva foi uma das fundadoras do PT e se tornou um smbolo da defesa da Floresta Amaznica. Com esse discurso, ganhou fama mundial, foi eleita senadora e, em 2003, nomeada ministra do Meio Ambiente de Luiz Incio Lula da Silva. Ao longo de sua gesto, trombou com a ento ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que a considerava intransigente. A gota d'gua foi a briga entre ela e Dilma em torno da criao da usina de Belo Monte, que Marina combatia. "Perco o meu pescoo, mas no perco o juzo", disse antes de deixar o cargo e o PT. Foi para o PV, pelo qual disputou a eleio presidencial. Saiu no ano seguinte por no aceitar ver as bandeiras do partido serem negociadas em troca de cargos e verbas em governos. 
     Mas, no caso da tentativa de criao da Rede, o fracasso no se deu apenas pela averso de Marina aos velhos mtodos da poltica. Faltou-lhe expediente tambm. Os lderes do recm-criado Solidariedade, por exemplo, comearam o processo de coleta de assinaturas h dois anos e usaram a mquina da Fora Sindical para reuni-las. Da mesma forma, o presidente do Pros percorreu o Brasil durante seis anos para obter apoios. J o grupo de Marina deu a largada para a coleta de assinaturas, feita por voluntrios, apenas em fevereiro deste ano, depois de passar dois anos e meio, desde a eleio de 2010, brigando com o Partido Verde e debatendo se deveria construir um novo partido ou se incorporar a algum j existente. O resultado foi o que se viu na sexta-feira. Para a criao de um partido  necessrio ter o apoio de 492.000 eleitores, o equivalente a 0,5% do eleitorado. Marina conseguiu comprovar a veracidade de apenas 442.500 apoios. Embora houvesse simpatia pela causa da ex-senadora, os ministros do TSE no podiam passar por cima da lei. 
     Agora, qualquer deciso que Marina tomar ter impacto decisivo na eleio presidencial. Se mantiver a candidatura, dar a largada como a grande rival da presidente Dilma Rousseff. Precisar, no entanto, superar a falta de um partido que lhe d tempo de TV, dinheiro e apoio nos estados, deficincias que espera compensar com a mobilizao nas redes sociais e o empenho dos jovens de grandes cidades e do eleitorado evanglico. Caso desista, ser o fiel da balana. Se a maioria de seus votos migrar para Dilma, pode provocar a reeleio da petista em primeiro turno. Mas, se eles forem para os oposicionistas Acio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), podem significar a passagem para uma acirrada disputa no segundo turno, quando todos se uniriam contra a presidente. Sua deciso dar a largada da campanha presidencial. 

SONHOS E CONVICES
Veja o que Marina Silva j disse sobre a criao de seu frustrado partido poltico, a Rede Sustentabilidade, os rumos que imagina para o Brasil e temas como legalizao do aborto, casamento gay e drogas.

O FUTURO DA REDE
A derrota ou a vitria s se medem na histria"
J somos partido poltico, sim. Se agora no temos o registro legal, temos o registro moral perante a sociedade brasileira"
"Nem direita, nem esquerda. Estamos  frente"
Muitos partidos se institucionalizam para depois ganhar representao social. Ns fizemos exatamente o contrrio. Ganhamos representao social no pas inteiro e depois buscamos a institucionalizao"
Como dizamos em nossa juventude, mesmo que matem milhares de flores, no podero impedir a chegada da primavera"

CANDIDATAR-SE OU NO
"Vai pesar na minha deciso a disposio dos que esto preocupados com a ideia que a gente tem de quebrar essa polarizao oposio por oposio e situao por situao"
"Poltica no  s eleio. Quem diz isso pode ser chamado de ingnuo ou mal-intencionado. (...) No podemos aceitar a reduo do debate aos termos da disputa de votos, assim como no podemos medir o desempenho de um governo apenas pelos seus ndices de popularidade"

ABORTO, CASAMENTO GAY E DROGAS
Eu, pessoalmente, tenho uma posio contrria ao aborto e defendo que se faa um plebiscito para as propostas que hoje esto sendo debatidas e que no esto previstas em lei"
O casamento  uma instituio entre pessoas de sexo diferente, uma instituio que foi pensada h milhares de anos para essa finalidade"
Os direitos civis das pessoas gays devem ser assegurados como os de qualquer outra pessoa; no deve haver discriminao. Obviamente a nossa Constituio tambm assegura liberdade religiosa"
Nunca fumei maconha, bebi lcool ou tomei Daime. S Biotnico Fontoura"

O GOVERNO E O BRASIL
O Brasil requer solues mais do que urgentes, estruturais e estratgicas, que no surjam atabalhoadas, na solido dos gabinetes, com regras do marketing e prazos eleitorais"
"No sentimento da populao, a agenda j est se definindo. Sem mudanas polticas e institucionais, o avano ser mais demorado e com maiores riscos de rupturas e conflitos, mas acontecer, porque seu tempo chegou. E, nas prioridades anunciadas pelas ruas, no h volta atrs"

COM REPORTAGEM DE ALEXANDRE ARAGO E PIETER ZALIS


2. VIVO E  ESPREITA
     A quem perguntava por que tomou a deciso de permanecer no PSDB, Jos Serra relembrava um trecho do livro Esa e Jac, de Machado de Assis: "O imprevisto  uma espcie de deus avulso, ao qual  preciso dar algumas aes de graas: pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos". O que o ex-governador de So Paulo ainda espera  que at junho do ano que vem, prazo final para o registro das candidaturas, o "deus avulso" do imprevisto retire a escolha tucana dos planos do senador mineiro Acio Neves e a ponha em suas mos. 
     Serra tinha duas opes: ficar no PSDB ou ir para o PPS, que lhe oferecia a condio de candidato  Presidncia, mas pouco alm disso. Com apenas nove deputados federais, teria menos de um minuto de tempo de televiso na propaganda partidria, o mesmo que um candidato nanico. Decidiu, ento, ficar na sigla  que ajudou a fundar em 1988 e esperar por uma desistncia de Acio. 
     Enquanto isso no ocorre, Serra acertou com o senador mineiro que continuar a viajar pelo pas. Nos ltimos meses, esteve na Bahia e no Paran. Tambm no desmontou sua mquina de pr-campanha e mantm uma equipe de marqueteiros e assessores que o ajudaram em eleies passadas. Mas, para que o plano de Serra v adiante, precisaria haver uma enorme reviravolta. Acio detm hoje o controle do PSDB e j afirmou estar decidido a disputar a Presidncia da Repblica no ano que vem. Caso o mineira no mude de ideia, Serra partir para um plano B, mas ainda no definiu se ele ser uma candidatura a deputado federal ou a senador. O que  lquido e certo  que Serra dar a Acio o mesmo apoio que considera ter recebido dele quando disputou a Presidncia em 2002 e 2010. Nenhum.
DANIELA LIMA


3. O FANTASMA REAPARECE
Adir Assad ficou calado na CPI que investigou o escndalo Delta. Polticos respiraram aliviados. Mas agora uma operao da PF volta a assombrar os envolvidos.

     As investigaes sobre o esquema da construtora Delta, do empresrio Fernando Cavendish, terminaram de forma melanclica no Congresso um ano atrs. A CPI que prometia escancarar as relaes escusas entre polticos e a empreiteira que se tornou a preferida do governo federal, com contrato com 23 governos estaduais, produziu um magro relatrio com menos de duas pginas e nem um nome suspeito sequer. Um dos motivos para o fracasso da investigao foi o silncio do homem chamado pelos policiais de "Marcos Valrio do esquema Delta". O empresrio Adir Assad controlava quinze empresas-fantasma que receberam quase 300 milhes de reais da Delta entre 2007 e 2012. De acordo com as investigaes, esse dinheiro era sacado aos milhares na boca do caixa por laranjas. E para quem esses laranjas repassavam a bolada? A terra tremeu quando Assad foi convocado a depor na CPI para responder a essa pergunta. Na ocasio, o empresrio se calou. Agora, documentos apreendidos pela Polcia Federal podem falar por ele. 
     Na ltima tera-feira, a PF fez uma operao de busca e apreenso no apartamento de Assad em So Paulo, em uma torre em cima do Shopping Cidade Jardim. Escritrios de contabilidade ligados a ele tambm foram vasculhados, assim como endereos da Delta. O empresrio estava em Paris e voltou s pressas para avaliar o tamanho do prejuzo. Em meio ao material recolhido, investigadores encontraram anotaes que fazem referncia a valores e  palavra "eleio". No  preciso muita imaginao para suspeitar que se trata de um registro de pagamento de propina destinado ao caixa dois de polticos que ajudaram a manter fartamente abastecidos com dinheiro pblico os cofres da Delta  e, provavelmente, de algumas concorrentes tambm. No ano passado, Fernando Cavendish chegou a declarar que no era o nico pecador a usar os servios de Assad para repassar dinheiro a candidatos. 
     Antes de virar frequentador assduo de CPIs e delegacias da PF, Assad era um conhecido empresrio do ramo de entretenimento  participou da produo de shows como o de Shakira e o de Amy Winehouse. Foi nessa condio, como presidente da Rock Star Marketing, que ele proferiu h alguns anos uma palestra na Fundao Getulio Vargas, em So Paulo, cujo tema eram as iniciativas bem-sucedidas na rea. Afirmou Assad, na ocasio: "Quem controlar melhor as relaes interpessoais  que vai se dar bem nesta vida". Agora, a revelao do contedo das planilhas descobertas pela PF pode provar que o contrrio do que ele disse tambm  verdadeiro. Por causa de certos contatos, tem muita gente tremendo de medo de se dar mal. 
ALANA RIZZO


